sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Água Again


Água Again

Que coisa boa, abençoada, graciosa e dadivosa.
Ver a chuva novamente descer mansa e manhosa.
Sobre os picos e os vales dessa terra montanhosa.
Levando embora, enfim, aquela seca horrorosa!
Pode haver, por hora, coisa mais gostosa?
Só se ela for mensageira e companheira
do murmúrio dos pingos nas goteiras
do barulho 180db das nuvens trovejeiras
do aroma molhado que a terra cheira
do céu todo cinza, sem azul nas beiras
de corpos encharcados de tanta aguaceira.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Quem se preocupa com a vida?!

Quem se preocupa com a vida?!

Desenvolvimento econômico, retomada do crescimento, industrialização, competitividade, câmbio monetário, distribuição de renda, redução da miséria, inclusão digital, exploração do pré-sal, bolsas sociais, ... é o que mais se ouve e se vê nos programas eleitorais.
Pouco ou nada se fala de crescimento sustentável, agricultura orgânica, desequilíbrio ecológico, recuperação e preservação dos recursos hídricos, degradação ambiental, poluição em geral, e nem mesmo de saúde e educação ... ou seja, das coisas mais elementares e fundamentais para a manutenção da Vida propriamente dita!
Estes assuntos são, na maioria das vezes, tratados como secundários, de menor importância, como sonhos, quimeras, e até como fantasias, loucuras, utopias! E é simplesmente da vida, da vida do planeta, da vida animal, da vida vegetal, da nossa própria vida, o que se trata nestes assuntos!
É absurdamente incrível, inacreditável, como ainda maltratamos e desrespeitamos tanto a terra, as águas, o ar, os animais, o planeta! Como ainda achamos que os recursos naturais, e mesmo os artificiais, que criamos, são eternos, abundantes, fartos, infinitos! Como não nos preocupamos com a qualidade (e quantidade) de vida – não só da que deixaremos pros nossos filhos e netos, mas também da nossa própria, aqui e agora! Como ainda pensamos de forma tão egoistamente imediatista, sem a mínima preocupação não mais apenas com o próximo século ou milênio, mas nem mesmo com o ano que vem! Como ainda não concordamos que tudo, absolutamente tudo, deste planeta – que ainda é o único que temos! – tem que ser muito bem usado, explorado, renovado, e minimamente bem distribuído e compartilhado, sob pena de não ter, e muito menos “sobrar”, pra ninguém! E tudo tem a ver com tudo. Tudo e todos somos inescapavelmente interdependentes!
Esta situação me lembra muito algo que apreendi, décadas atrás, de alguma sábia ciência filosófico-existencial de alguma milenar civilização oriental: Em todo planeta onde há vida, há sempre um ser inteligente dominante. E este ser é O Responsável pela manutenção da qualidade da vida – devendo manter, no mínimo, como recebeu – de Todo o planeta, inclusive da dos seus irmãos “menores”, animais, vegetais e minerais. Isto seria uma graça ou um legado “divino” dado, como responsabilidade, em contrapartida à dádiva da inteligência maior. (nesta mesma época, cheguei a pensar: que pena que o bicho homem não deu certo, talvez os dinos tivessem se saído melhor!)
A escassez de chuva já está nos secando; a falta d'água vai pouco a pouco nos desidratando; o ar, há muito, está nos sufocando; a terra sob nossos pés, rachando; rios e lagos evaporando; oceanos inundando.
E alguns cientistas ambientalistas vêm dizendo até que tudo isso é devido a “ciclos naturais climáticos e de intempéries” a que o planeta periodicamente está sujeito (como as eras glaciais. vamos ter mais?), e que as ações do ser humano não interferem em nada disso! Será mesmo?! E ainda que assim seja, será que não estamos agravando os problemas?! Não deveríamos tentar fazer algo para minimizar isso para passar razoavelmente bem por estes “ciclos naturais”?! Não temos conhecimento e tecnologia para isso?!
Não dá pra colocar uns filtros anti partículas sólidas nas chaminés da China?!
Não dá pra instalar umas usinas termo-solares no sul dos EUA?!
Não dá pra praticar agricultura sem agrotóxicos no Brasil?!
Não dá pra fazer carro elétrico pra todo mundo?!
(ou, pelo menos, só os ônibus?!)
O que falta é atitude, desejo real, ação e, principalmente o tal do “interesse político”. Ou será que, agindo assim, não estaríamos contrariando outros “grandes interesses maiores”?!
Mas não, não é importante se preocupar com a vida! Importante mesmo é se preocupar com a competitividade da indústria nacional ou em aumentar o valor da bolsa social.
E, muito pior, esta situação não é exclusiva do Brasil; é, sim, global, mundial. Todos os países, principalmente os “subdesenvolvidos” e os “emergentes”, estão atrelados a ela. Aliás, vem se impondo muito mais de fora para dentro do país, através das “políticas econômicas globais”, e nós nos subjugamos completamente a ela.
Infelizmente, a imensa maioria dos governantes e políticos, em qualquer lugar do mundo atual, não se preocupa de fato com isso. Quando, mal e mal, colocam isso nos seus papéis programáticos, ainda assim sob pressão política, é por mera, inconfessável e indisfarçável intenção eleitoral.
Pouquíssimos políticos se preocuparam, ou ainda se preocupam, realmente com a Vida propriamente dita – e invariavelmente são “derrotados” nas urnas. Só para citar dois bons exemplos, ambos candidatos à Presidência da República em dois grandes e importantes países, nos últimos 15 anos: Albert Al Gore nos Estados Unidos e Marina Silva no Brasil.
Mas, ambos foram vistos como sonhadores, idealistas, utópicos, foras-da-realidade, e até como malucos, loucos. Foram mal recebidos, mal tratados, desrespeitados, descartados, ridicularizados e humilhados. Foram tidos até como figuras de historinhas de magos e fadas, contadores de contos da carochinha, druidas, duendes (doentes?), ets e seres de outros planetas!
Se você preocupa-se com a Vida, seja lá em quem você votou ou ainda vai votar, faça com que o seu candidato inclua, de fato, na sua agenda legislativa ou executiva, questões diretamente ligadas à salvação, melhoria e manutenção da(s) vida(s) do planeta Terra.
Lute, primeiro, pelo que realmente importa, hoje e sempre! Lute pela Vida!

domingo, 5 de outubro de 2014

Escadas Kafkianas


Escadas Kafkianas

Nada mais intrigante
Nada mais perturbante
Nada mais instigante
Mais misterioso
Mais doloroso
Mais ardiloso
escabroso
tenebroso
e periculoso
do que as extensas, longínquas, indefinidas, intermináveis, tortuosas e torturantes escadas de Kafka.

Titubeantes escadas kafkianas
Degrau a degrau
Patamar a patamar
Que nunca nos sabem levar.
Nada a guiar, nada a orientar
Nada pretendem alcançar
Escaladas somente pra enganar
Nem mesmo um mínimo iluminar.

Escadas cansativas, exaustivas
Escadas traidoras, desesperadoras
Escadas surpreendentes, recorrentes, intermitentes.
Escadas que levam de lugar nenhum até o nada ou do nada até nenhum.

Escadas kafkianas
são apenas escadas que sobem ou descem,
sem rumo ao nada.
Calada, kafka escada
Kafkas escapadas
Escapulidas
És cada
Ex-cada
Por nada.

Tributo aos cento e tantos anos ou mais ou menos do nascimento ou morte, tanto fez, tanto faz, de Franz Kafka.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Lugar Estranho!


Lugar Estranho!

Como é que um lugar tão familiar,
pra de cabeça se lançar, se atirar,
e de corpo inteiro, nu, se entregar,
de repente se torna tão estranho,
desconhecido um tanto tamanho
que nos repele como espantalho?!

É o fundo vazio e seco da piscina,
frio na espinha, visão fria repentina,
sem nada, nem água um quanto.
Em reforma, o verão aguardando.
Aguardando água, um bom tanto.

E eu no fundo desse poço penso:
E se nunca mais chover?!
E se a água acabar de vez?!
E a piscina nunca mais encher?!
Melhor morrer de vez,
ou de vez morrer?!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Estado de Obra


Estado de Obra

Vira e mexe, vez ou outra, de vez em quando, eu me vejo amarrado, emparedado, entijolado e concretado em algum tipo de obra, alguma nova construção, outro puxadinho, mais uma reforma. É o ap de uma filha, é o sítio da ex-sogra, é o escritório da outra filha, é a casa do cunhado, é minha própria casa, e por aí vai. Até que eu gosto muito disso, parece uma espécie de ranço, de encosto, de estigma, de atração subconsciente, uma alta missão espiritual transcendental ou mesmo pura e diabólica maldição, que carrego eternamente comigo como herança da minha antiga profissão: engenheiro – que nada mais é que um pedreiro, um marceneiro, um ferreiro, um carpinteiro, e outros tantos mais “eiros”, todos juntos.
Gosto sim, mas não pode ser mais que uma obra a cada cinco ou seis anos, por que em freqüência maior do que essa eu me sinto muito cansado e desestimulado, estressado por excesso de obra. E gosto principalmente dos trabalhos com madeira – são mais maleáveis, flexíveis e adaptáveis, ou seja, aceitam com mais facilidade mudanças, rearranjos e alterações, o que condiz melhor com meu atual estilo de vida e meus sagrados e universais princípios filosóficos, metafísicos e metas espirituais.
Dia desses, enquanto serrava aqui, martelava ali e lixava lá, me peguei pensando no quê poderia ser mais importante em qualquer obra. Qual material, ferramenta ou insumo seria mais importante em uma construção civil? O tijolo, o cimento, a areia? Sim, mas há outros. O martelo, a pá, o serrote? Talvez, mas nem tanto. O prego, o alicate, o parafuso? Pode ser. A escada, o andaime, a furadeira, o carrinho de mão, a marreta, o arame, a fita isolante, o metro, a fita métrica, a fita...
Pois é, quer saber? Acabei de descobrir ontem! Importante, fundamental, indispensável e essencial mesmo é a fita crepe! Isso mesmo, a Fita Crepe!
A fita crepe, sim, resolve tudo, ajuda em tudo, se aplica em tudo, em toda e qualquer situação, principalmente nas mais drásticas, dramáticas e perigosas. Nas situações e condições de limite extremo, aquelas totalmente fora das CNTP (Condições Normais de Temperatura e Pressão), em que um obreiro tem que provar que é um obreiro de verdade, com O maiúsculo. Naqueles momentos em que você já fez de tudo, já apelou pra tudo e pra todos os santos, inclusive pra São José Carpinteiro, pra Mulher dele e pro Filho dele, e nada adiantou... lá vem a fitinha crepe pra resolver a situação!
Ela é mesmo pau-pra-toda-obra, ou melhor, fita-pra-qualquer-emenda. Emenda, remenda e não desemenda. Serve para marcar desde a posição onde vai ser levantada a parede nova até a presença da vidraça recém colocada, pra nenhum desavisado enfiar a cabeça. Marca e rotula toda a fiação da instalação elétrica. Desenha na parede a posição e o formato da nova janela, Veda todos os saquinhos de pregos e parafusos pra não ficar tudo misturado e esparramado. Serve de etiqueta pro quadro de aviso e até pra fazer lista de material. Prende provisoriamente no lugar certo toda e qualquer coisa até que a instalação definitiva possa ser feita. Marca as juntas e dobras das paredes pra servir de guia pro pintor. Isola as áreas onde o pintor, ou aquela tinta, não deve ir de jeito nenhum. Veda, isola e protege todo e qualquer ponto que tenha que ser vedado, isolado e protegido.
Nunca faça uma obra sem ter, no mínimo, meia dúzia de rolos de fita crepe à mão (três da fina, de 2 cm, e três da grossa, de 4 cm).
Viva a fita crepe! Eu não vivo sem fita crepe! Eu amo fita crepe! (Por ser engenheiro eletricista, eu sei que a fita isolante fica um pouco enciumada, mas fazer o quê? É a crepe que está sempre presente nos meus piores momentos)
A fita crepe é o meu verdadeiro pronto-socorro imediato, seguro, infalível, e é até mesmo a minha querida guarda salva-vidas.
Poucos anos atrás, andava eu sobre o meu telhado reformado, fazendo reparos de rotina antes das chuvas, quando, de repente, esbarrei a perna com tanta força na quina-viva de uma calha metálica que a quina dobrou e deixou um belo corte (cerca de 2,5 cm de comprimento por 0,5 cm de profundidade média) na minha coxa direita. O sangue brotou volumoso, caudaloso, forte, intenso, vermelhão, às enxurradas! Qualquer um que visse aquilo diria que eu deveria ir correndo pro hospital ou pro posto de saúde pra dar pontos. Eu também pensei isso.
Segurei firme a ferida, respirei fundo, desci a escada e fui procurar uma solução mais imediata pro problema. Saí procurando pela casa: Esparadrapo? Nada! Band-Aid? Nada! Gaze? Nada! Algodão? Sim, mas... mais nada! Até que me lembrei da minha salvadora fita crepe! Não vacilei: lavei o corte, passei álcool, rejuntei as duas margens de carne, e emendei fortemente com a fita, enrolando-a na coxa. Repeti o processo por três dias. Ao final do terceiro dia, a ferida estava totalmente curada e a cicatrização absolutamente saudável, completa e perfeita.
Bendita fita crepe!

domingo, 7 de setembro de 2014

Netos


NETOS

Netos são filhos dobrados,
ao quadrado, multiplicados,
à enésima potência elevados.

Netos nos deixam mais perto,
mais alertos, mais abertos,
nos mostram futuro mais certo.

Netos são inexplicáveis,
Intraduzíveis, não interpretáveis,
são simplesmente adoráveis!

Quer uma garantia de que você vai viver mais 30, 50 ou 80 anos?!
Olhe para eles, cuide deles, viva com eles, se apaixone por eles!

Netos são preciosos presentes,
são passado e futuro juntos,
precisos, exatos, no presente.

Netos! Se você já tem,
curta bastante, todo dia, sem parar!
Se ainda não tem,
cobre de quem possa lhe dar!

Netos vêm para renovar,
revigorar, reviver, renascer,
reacender, resgatar, reatar, salvar,
e tudo o mais que tenha a ver, a ser, a dar, a amar!

(Clara e Francisco na varanda dos brinquedos em 06/09/2014)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Muro Deslocado


Muro Deslocado

Hoje ergui um muro de tijolo furado,
sem um pingo sequer de concreto desarmado,
usando apenas arame de aço cozido e temperado,
a guisa de viés e linha de arrematado,
para deixá-lo bem costurado, cintado e aprumado.

Muro dividindo um lado de outro lado:
de um lado, o asfalto desolado,
de outro lado, o mato fechado.
Muro onde não se pode ficar encostado,
sob risco de vê-lo caído, desabado.

Eu que sempre busco horizontes desmurados, desbloqueados,
ergui este muro, obrigado, indignado, sofrido, suado e calado.

Muro que me deixa separado
de certo panorama acalentado.
Que me deixa isolado, apartado,
de certo espaço ilimitado.
Num tempo limitado, confinado.

Eu que vi o de Berlim ser construído, envergonhado,
depois demolido, festejado, por um país unificado.
Ato encerrado, até por Pink Floyd encenado.

Pois hoje ergui um muro de tijolo furado,
sem um pingo sequer amado.
Não é abstrato nem figurado,
é concreto, real, está solidificado.
Mesmo sem concreto armado ou desarmado.